Conviver não se revela apenas nas palavras.
Muitas vezes, ele se manifesta no silêncio dos olhares.
Antes mesmo de qualquer fala, o olhar já comunica. Ele pode acolher, compreender, respeitar, mas também pode julgar, constranger e afastar. E, em muitos espaços do cotidiano, é justamente através dele que a exclusão acontece de forma sutil, quase invisível.
Um comportamento diferente em público, uma reação inesperada, uma dificuldade de comunicação. Situações que, para algumas pessoas, exigem compreensão, mas que ainda despertam estranhamento em muitos olhares ao redor.
E é nesse momento que o desconforto se instala.
Não é preciso uma palavra para que alguém se sinta julgado. Um olhar insistente, uma expressão de reprovação ou até mesmo a curiosidade excessiva já são suficientes para gerar constrangimento. Para quem vivencia essas situações com frequência, o impacto é profundo.
Pessoas neurodivergentes e pessoas com deficiência, assim como suas famílias, aprendem desde cedo a lidar não apenas com os desafios do cotidiano, mas também com a forma como são vistas pela sociedade.

E, muitas vezes, esse olhar não acolhe, ele afasta. O problema não está na dúvida ou no desconhecimento. Está na falta de sensibilidade diante do que é diferente. Está na ausência de empatia que transforma o outro em algo a ser observado, e não compreendido. Olhar também é uma forma de se relacionar. Quando olhamos com julgamento, criamos barreiras. Quando olhamos com respeito, abrimos caminhos.
É possível transformar esse cenário com atitudes simples, mas conscientes:
Evitar encarar de forma invasiva.
Substituir o estranhamento pela empatia.
Compreender que nem todas as vivências são visíveis ou facilmente explicáveis.
Ensinar, principalmente às crianças, o respeito às diferenças;
A inclusão não acontece apenas nas grandes ações.
Ela se constrói nos detalhes.
No olhar que acolhe em vez de constranger.
Na postura que respeita em vez de julgar.
Na compreensão de que cada pessoa vive sua própria realidade, com seus desafios e formas de existir no mundo.
Conviver é também aprender a olhar de outra forma.
É reconhecer que o diferente não precisa ser corrigido, mas compreendido.
É permitir que o outro exista sem precisar se justificar o tempo todo.
É transformar o olhar em ponte, e não em barreira. Porque, muitas vezes, o que mais fere não é o que é dito é o que é percebido sem palavras.
Conviver é aprender juntos, no tempo de cada um.
Valterlicio
Bacharel em Direito, Conselheiro Tutelar e Professor de capoeira

